domingo, 4 de fevereiro de 2007

"Ser ou não ser, eis a questão" BRAVO André Gago!


Reino da Dinamarca. O tio de Hamlet, Cláudio, assassina o rei seu irmão e, dois meses depois, desposa a rainha viúva, tornando-se ele próprio rei, no lugar do jovem Hamlet, que deveria suceder ao pai. Inconformado, Hamlet é confrontado com o espectro do pai, que lhe revela o crime e lhe exige vingança. O comportamento que Hamlet adopta de aí em diante é semelhante a um estado de loucura. Sabendo-se espiado por Cláudio e Polónio, maltrata a filha deste, Ofélia, por quem manifestara sentimentos amorosos. Com a ajuda de um grupo de actores, e para se certificar da culpa de Cláudio, faz representar diante dele uma cena idêntica ao crime que este praticou. Pálido e incrédulo, Cláudio manda parar a representação. A prova está feita.


Ser ou não ser - eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias ­
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono - dizem - extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer - dormir­
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte ­
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante - nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transformar pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

(SHAKESPEARE)

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