quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

A Selva Urbana ou Como Apertar O Cinto Alargando O Tamanho Das Calças Com Tranquilidade

Ainda não passou assim tanto tempo que já nos tenhamos esquecido das célebres advertências: “É hora de apertar o cinto” e “O país está de tanga”, mas a minha favorita é a que circulava pelas ruas nos comentários às afirmações anteriores: “Talvez teremos que fazer mais furos no cinto, porque apertado já ele está!”. Embora seja assim, há dias em que somos recordados que há quem viva mais e melhor com menos... muito menos. Hoje foi um desses dias e estou em pulgas para partilhar com vocês esta história. É que em Portugal há uma regra muito importante: Vale tudo quando se trata de ser mais esperto que o vizinho.

A quarta-feira não costuma ser o dia de eleição para ir ao cinema por três motivos: 1º - não é fim de semana; 2º - não é segunda feira, portanto os bilhetes não são mais baratos; 3ª - não é quinta-feira, logo não há estreias. Mas graças a uma palavra, que nem é um palavrão, chamada de competição podemos ter acesso a um bom jantar mais um bilhete de cinema por 8€ no shopping de Oeiras (passo a publicidade). Como todos sabem a competição entre duas ou mais entidades serve sempre um propósito maior e tende a salientar o que de melhor e pior há nessas mesmas entidades que competem. Neste caso, quem sai beneficiado somos nós, consumidores, e não é necessário falar mais sobre os beneficios: todos nós os conhecemos.

Mas continuemos a falar sobre competição entre empresas. Existem vários restaurantes que aderiram à promoçao que o shopping lançou. A escolha é variada desde a comida mais saudável à tipica picanha brasileira com arroz, feijão, couve e farófia. Foi por esta última que eu me decidi por congregar todos os amino-ácidos, hidratos de carbono, proteínas e calorias que eu considero necessários para viver bem.

Dirigi-me ao restaurante que escolhi e noto à entrada que já possuem a célebre promoção do “encha o prato com tudo o que conseguir que não paga mais por isso”. Lá está! Mais um fruto da competição. Eu limitei-me ao ménu que estava disponível através da promoção do cinema. Feliz da vida observo uma rapariga que saltitava de bancada em bancada a encher o seu prato com tudo o que conseguia. «Engraçado - pensei eu - ela nem é gorda. Deve ter mais olhos que barriga!». Junto com ela estava um rapaz que parecia ser o seu namorado, também ele com o prato cada vez mais cheio...

Vou-vos dar uma imagem para perceberem bem o absurdo da coisa. Peguem num prato da vossa cozinha e meçam com a vossa mão um palmo na vertical. Agora que já têm uma ideia podemos continuar.

Antes de pagarem a módica quantia de 5,99€ ainda ouvi o rapaz dizer à rapariga que gostava de levar mais arroz. Arroz branco? – perguntou ela; Não, daquele ali, de cenoura – respondeu ele. Não fui o único a ficar surpreendido com as capacidades de digestão deste casal elegante. A empregada nunca tinha visto uma coisa assim: Já cá trabalho há algum tempo e eles deram-me a volta ao estômago! Eu respondi que era uma boa ideia alimentar-se com a fome dos outros... não gasta tanto e mantém a linha.

Intrigado, escolhi um lugar perto deste casal. Comentei com a minha companhia o que se tinha passado e depois de rir-mos um bom bocado começamos os dois a bisbilhotar a mesa ao fundo.

Ele estava sózinho. Ela estava junto ao balcão de outro restaurante. Mais comida??? Não. Dois tupperwares do serviço take-away. Em cima da mesa já estava um tupperware verde, de trazer por casa, cheio de carne e uma caixa de aluminio com tampa de cartão. Os pratos deles obviamente que já estavam com a quantidade normal de comida para um jantar. mas na verdade tinham ali ao todo comida suficiente para mais quatro refeições.

Os nossos queixos estavam caídos. Sentia um misto de gozo e admiração por aquelas duas personagens que estavam a furar o sistema com tanto à vontade. Notava-se que já não era a primeira vez. Tinham trazido um tupperware de casa e já faziam tudo com um mecanismo impressionante. No final da refeição o rapaz levantou-se e foi buscar um café cheíssimo. Partilharam! Depois deste acto romântico ela levantou-se com um papel na mão e entregou-o na loja de gelados. Provavelmente uma promoção qualquer que eu desconheço. Trouxe dois gelados de copo, cheios até acima.

A vontade de observar o ambiente para ver se mais alguém tinha reparado no mesmo que nós atingiu-me com uma força tentadora. E como Oscar Wilde disse: consegue-se resistir a tudo, menos à tentação!

Para maior das surpresas, nas nossas costas estava um casal a comer um frango assado e batatas fritas de pacote à mão. Acontece que o passaro está embrulhado no mesmo papel que faz publicidade ao hiper mercado que vende o frango assado a 1,99€.

E eu que pensava que tinha poupado imenso ao pagar 8€ por uma refeição e um filme. Fora de brincadeiras, a palavra está transmitida e a inspiração partilhada: cabe a cada um compreender e aprender a usar o sistema em proveito próprio. Pelo menos em Portugal!

Já agora, o filme escolhido foi “In pursuit of happyness” e recomenda-se vivamente.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

"Ser ou não ser, eis a questão" BRAVO André Gago!


Reino da Dinamarca. O tio de Hamlet, Cláudio, assassina o rei seu irmão e, dois meses depois, desposa a rainha viúva, tornando-se ele próprio rei, no lugar do jovem Hamlet, que deveria suceder ao pai. Inconformado, Hamlet é confrontado com o espectro do pai, que lhe revela o crime e lhe exige vingança. O comportamento que Hamlet adopta de aí em diante é semelhante a um estado de loucura. Sabendo-se espiado por Cláudio e Polónio, maltrata a filha deste, Ofélia, por quem manifestara sentimentos amorosos. Com a ajuda de um grupo de actores, e para se certificar da culpa de Cláudio, faz representar diante dele uma cena idêntica ao crime que este praticou. Pálido e incrédulo, Cláudio manda parar a representação. A prova está feita.


Ser ou não ser - eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias ­
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono - dizem - extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer - dormir­
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte ­
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante - nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transformar pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

(SHAKESPEARE)